IAB é Ponto, Linha, Plano e Volume de Cultura

Data: 17/03/2017
Por: Vinicius Vieira

*Por Vinicius Vieira

Recentemente o IAB RS passou a fazer parte da rede dos Pontos de Cultura. A Lei 13.018/2014, que institui a Política Nacional de Cultura Viva, reforça a importância da rede ao estimular ações de base comunitária, possibilitando o amplo exercício dos direitos culturais pela população, além de potencializar a cultura como eixo transversal do desenvolvimento social e econômico sustentável. Nesse contexto, considerando o referido conceito, mostra-se importante lembrar o papel da entidade dos arquitetos ao longo da história, bem como os caminhos que a levaram a ser reconhecida como Ponto de Cultura.

A formação do IAB está intimamente ligada à cultura. Fundado em 1921 no Rio de Janeiro, ele nasce em meio à efervescência das artes e da política brasileira às vésperas da Semana de Arte Moderna de 1922. Nos anos seguintes a corrente modernista ganha força em todos os segmentos culturais, e a destacada produção dos arquitetos brasileiros nas décadas de 30 e 40 influenciaram diretamente a sociedade e a formação de novos olhares que estimularam o entendimento da arquitetura como manifestação cultural no País.

No Rio Grande do Sul não foi diferente, e desde a fundação do IAB RS em 1948 se verifica o comprometimento dos arquitetos com a cultura. Isso se evidencia ainda mais com a intensa agenda cultural da entidade na antiga sede na rua Annes Dias, em Porto Alegre. A pujança do centro da cidade nos anos 60, a proximidade do lugar com a Universidade e a agitação cultural impulsionada pela resistência ao regime militar que se instalava, sem dúvida contribuíram para que a sede viesse a se consolidar como ponto de encontro de artistas, estudantes, arquitetos, sociólogos, jornalistas e intelectuais. A galeria de arte do IAB foi fundada nesse contexto em 1966, durante a gestão de Cláudio Araújo, com a colaboração do escultor Xico Stockinger, em inauguração que contou com a exposição de Flávio de Carvalho. Uma das obras dessa mostra foi doada pelo artista à época, e encontra-se disponível para visitação na atual pinacoteca da entidade.

O IAB RS consolida-se junto à comunidade nos anos 70, sendo palco para o surgimento de grupos como o Tangos e Tragédias e o Teatro de Bonecos Cem Modos. O lugar abrigou também exposições de Volpi, Emanoel Araújo, Glauco Rodrigues, Danúbio Gonçalves, Ado Malagoli, Maria Bonomi, Di Cavalcanti, Wesley Duke Lee, Décio Pignatari, Manabu Mabe, Henrique Fuhro, Magliani, Plínio Bernhardt, Pasquetti, Tenius, Ilsa Monteiro, Roth, Nelson Jungbluth, Léo Dexheimer, Regina Silveira, Leonid Streliaev, entre outros. Nos anos 80 ganha destaque o Bar do IAB. Unindo arte, arquitetura e política, torna-se o primeiro bar underground de Porto Alegre. Nesses tempos a música ganha importância, e o espaço recebe personalidades como Chico Buarque, Nana Caymi, Nei Lisboa, Elis Regina, Geraldo Flach e Celso Loureiro Chaves. E a literatura também, já que não era incomum ver Mario Quintana e Millor Fernandes autografarem na livraria junto ao bar que aparecia como lugar-síntese dos sentimentos e da movimentação cultural na cidade.

Com a mudança para o Solar na rua Gal. Canabarro em 2001, o IAB RS dá continuidade às suas atividades na cultura. Após a conclusão da primeira etapa das obras de restauro da nova sede, criaram-se as condições para realização de ações culturais que vêm sendo desenvolvidas até hoje de maneira contínua. Na atualidade elas integram o projeto Quarta no IAB, incluindo palestras, debates, apresentações, rodas de conversa e as noites de inauguração das exposições da Galeria Espaço IAB, que contempla artistas brasileiros e estrangeiros através de edital publicado anualmente. Vale ressaltar também a ampliação recente da representação do IAB RS na cultura na última década, evidenciada pela participação em conselhos municipais, bem como pela atuação dos arquitetos no Conselho Estadual de Cultura e no Conselho Nacional de Política Cultural. Destacam-se ainda as suas atividades em comissões e fóruns permanentes de debates como, por exemplo, a Comissão de Obras de Arte e Monumentos, além do apoio a grupos de ocupação dos espaços públicos. Insere-se nesse contexto o reconhecimento da entidade como Ponto de Cultura em 2015, firmado por convênio entre o IAB RS e a então Secretaria de Estado da Cultura, após a entidade ser selecionada em edital público. Ao integrar-se a essa rede, os arquitetos têm a oportunidade de estabelecer novas trocas com entidades do setor, além de realizar atividades com amplo retorno para a comunidade, dessa forma diversificando ainda mais as expressões culturais no Rio Grande do Sul.

Assim, motivado pelo histórico de compromisso com a cultura, o IAB RS une esforços pelo fortalecimento da dimensão cultural da arquitetura. Após a conquista da independência profissional no Brasil, os arquitetos agora também lutam para que se amplie ainda mais o conceito de arquitetura como manifestação cultural. Desse modo colocando a profissão à altura de sua relevância para a sociedade, reconhecendo-a como parte essencial do processo histórico que envolve diversos setores da cultura na valorização de nossa identidade. Nessa perspectiva estão sendo criadas as condições para a construção de novas políticas públicas que dêem visibilidade à arquitetura nesse cenário e que, por consequência, possam contribuir para a promoção da cultura como um direito humano.

*Vinicius Vieira é escultor, arquiteto e urbanista. Diretor cultural do Instituto de Arquitetos do Brasil - IAB RS e membro da setorial de artes visuais do Conselho Nacional de Política Cultural - CNPC.