O Projeto e o Memorial de Santa Maria

Data: 29/11/2017
Por: Tiago Holzmann da Silva

Porque muitos confundem um "desenho" com um projeto, uma "ideia" com um projeto, uma "imagem" com um projeto, até um “discurso” com um projeto? Um projeto não é feito com um risco numa sentada... não é fruto de uma inspiração, de um arroubo momentâneo.

O projeto é uma atividade técnica regulamentada em lei federal, tanto para arquitetos como para engenheiros. O projeto executivo de um espaço edificado leva meses de trabalho, envolve uma série de profissionais, exige a responsabilidade técnica e civil sobre o projetado e deve atender a uma infinidade de Normas Técnicas e leis incidentes.

Para o memorial de Santa Maria deverão ser elaborados pelo menos os seguintes projetos: arquitetônico, acessibilidade, estrutural, instalações elétricas e de comunicação, luminotécnico, instalações hidrossanitárias, SPDA (raios), PPCI (prevenção de incêndio), ar condicionado (provavelmente), paisagismo, comunicação visual e outros. Todos esses projetos serão acompanhados de memorial descritivo, quantitativos e orçamento detalhado para execução de obra.

Para permitir o começo da obra deverão ser atendidas todas as exigências de aprovação e licenciamento no Município (urbanismo, água, esgoto), concessionária elétrica, Bombeiros e outros que tem responsabilidade de fiscalizar os projetos e obras em nome de toda a sociedade. A responsabilidade pelas aprovações dos projetos é igualmente dos projetistas arquitetos e engenheiros e pode levar muitas semanas, até meses.

Esse é o trabalho dos Arquitetos que, realizado com profissionalismo e seriedade e respeitado pelo cliente e comunidade EVITA tragédias como a que aconteceu com nossos jovens em Santa Maria.

Durante toda a campanha de doação para o concurso e projeto do Memorial escutamos de algumas pessoas, inclusive de empresários, a sugestão de que os arquitetos deveriam “doar” o projeto e a crítica aos profissionais que querem “ganhar dinheiro”, vejam só, exercendo a sua profissão. Pressionar pela doação de trabalho técnico, ou entender que isso é normal ou uma “obrigação” dos arquitetos significa instalar um processo parecido ao que originou a tragédia: desrespeito aos profissionais, alteração leiga do projeto, falta de profissionalismo e de relação formal, aprovações “meia boca”, “vista grossa” na fiscalização, irresponsabilidade geral...

Temos 242 falecidos na tragédia e todos nós somos meros sobreviventes. Todos já estivemos em lugares e situações parecidas – sem projeto, sem fiscalização – correndo o mesmo risco. Se a construção do Memorial não nos ajudar a entender o que aconteceu, poderá acontecer novamente. O que o IAB RS propôs desde o início foi realizar um processo exemplar, perfeito jurídica e tecnicamente, contrariando a cultura dominante do jeitinho e do improviso. A Associação dos familiares – AVTSM – acreditou nessa proposta desde o primeiro momento e será, muito merecidamente, a promotora do primeiro Concurso Público de Arquitetura financiado exclusivamente pela sociedade, à qual deu provas inquestionáveis de sua maturidade e solidariedade.

* Tiago Holzmann da Silva é arquiteto e urbanista e coordenador de Concursos do IAB RS